Periodização do Treinamento Esportivo – Modelo Tradicional (I)

Na última matéria publicada sobre a periodização do treinamento esportivo fiz um breve resumo histórico sobre os modelos de periodização. Deve ter ficado claro que tem-se basicamente dois grupos de modelos – se é que podemos chamar assim. De um lado o Modelo Tradicional, baseado principalmente nas propostas de Matveyev e do outro os modelos chamados de contemporâneos. Os modelos de periodização contemporâneos surgiram principalmente com o objetivo de superar as possíveis falhas existentes no Modelo Tradicional (1).

No Brasil tem-se várias obras em português sobre teoria e metodologia do treinamento esportivo escrita por autores nacionais (2-5) ou internacionais (6-10). A maior parte destes livros apresentam com maior ou menor profundidade a Metodologia Tradicional. Acredito que o maior expoente e promotor desta área do conhecimento no Brasil seja o professor Antônio Carlos Gomes, que cursou seu mestrado e doutorado na Rússia sob orientação do próprio Matveyev (link currículo lattes). Sobre os modelos contemporâneos, acredito que o professor Paulo Roberto de Oliveira (link currículo lattes), recentemente aposentado pela UNICAMP seja a referência (11).

Mas vamos tratar sobre o Modelo Tradicional de periodização, objetivo desta matéria.

É importante lembrar que o homem sempre tentou (e continua tentando) racionalizar tudo aquilo que não conhece e tudo o que tem a sua frente. Com o esporte não foi diferente. Esse esforço é importante tendo em vista nossa constante necessidade de busca de eficiência. Assim, tem-se exemplos de propostas de organização do exercício físico que rondam o século II tendo em vista a realização dos Jogos Olímpicos da época (1). Desta forma, percebe-se que a metodologia de periodização nasceu como uma própria necessidade do esporte e dos atletas.

Mais recentemente, as teorias de periodização foram propostas na ex-URSS. As referências da época defendiam a divisão do período de preparação em treinamento geral e especializado. No treinamento geral focava-se na condição cardiorrespiratória, coordenação geral e habilidades atléticas básicas. Na etapa de especialização o foco era na modalidade esportiva. Essa proposta genérica foi abraçada por várias modalidades esportivas (1) (daí já podemos supor a existência de uma certa confusão.). Em meio a um conjunto de publicações Matveyev publica o primeiro resumo de atualização com um conjunto de conceitos científicos e empíricos; sendo, então, reconhecido como o fundador da metodologia tradicional (1).

Pode-se considerar que o Modelo Tradicional sustenta-se nos próximos quatro pontos (1):

(i)    relação carga-recuperação baseando-se no conceito de supercompensação:

Acredito que todos já tenham lido sobre supercompensação, mas vamos lá: primeiro o sujeito que está sendo treinado é exposto a um exercício. Essa carga causa uma reação fisiológica – uma fadiga temporária com redução na capacidade de rendimento. Depois ocorre o processo de recuperação e ao seu término, é alcançado um nível semelhante ao inicial. Finalmente, após as etapas anteriores, a capacidade de trabalho do atleta está acima daquelas iniciais – houve a supercompensação. Ou seja, o atleta encontra-se em um patamar superior ao que estava antes de sofrer este estresse físico.

Entretanto, um ponto que me deixa bastante cauteloso é saber que, segundo afirma Issurin (1), o fenômeno da supercompensação foi estudado inicialmente tendo como objetivo conhecer a recuperação de substrato energético (fosfato de creatina e glicogênio) após um único exercício. Posteriormente percebeu-se um comportamento semelhante usando outros estímulos fisiológicos e testes esportivos específicos. A partir disso, Matveyev propôs o que se conhece nos dias atuais: um conjunto de exercícios realizados no treinamento diminuirão momentaneamente a capacidade de rendimento do atleta que, após um período de recuperação, terá suas capacidades de rendimento aumentadas (1). Esse desenho pode ser percebido no microciclo, no mesociclo e até mesmo nas etapas e períodos.

Pessoalmente penso na questão que deve-se levantar: (i) será que a capacidade de rendimento depende exclusivamente da reposição de substratos energéticos?; (ii) será que as sessões de treinamento exigem a participação exclusiva de um sistema e não dos outros? Como ocorre essa interrelação? Alguns estudos trazem propostas de recuperação mediante a combinação de diferente estímulos. Acho muito genérico e superficial; (iii) e a capacidade de adaptação os outros sistemas?; (iv) e a capacidade emocional e volitiva, respondem da mesma maneira?; (v) o estudo inicial levantou a supercompensação de substrato energético após a realização de um único exercício. Pode-se extrapolar este raciocínio para o microciclo, mesociclo…?; (vi) como funcionaria este processo levando em consideração as diferenças biológicas entre os indivíduos?. Creio que estas sejam questões que precisam ser discutidas.

(ii)   princípios gerais da periodização do treinamento:

Alguns princípios da teoria do treinamento foram propostos por Matveyev. A palavra “princípio” também pode ser entendida pelos termos “base”, “lei”, “regra”, “norma”. Entendo, assim, que são as normas ou regras que devem ser seguidas no treinamento esportivo. Os princípios do treinamento desportivo são muito bem difundidos. O que gostaria de salientar é deve-se ter o senso crítico de entende-los a luz da época em que foram propostos. O princípio da continuidade, por exemplo, foi proposto em um período onde a interrupção do treinamento era relativamente frequente (1). Acredito que um dos motivos deva-se as condições climáticas do país. Apesar de continuar importante, não pensa-se em uma atleta de alto rendimento com pausas constantes no seu treinamento (1).

Apesar de uma aparente e indiscutível lógica na proposição destes princípios, vale a pena questionar sua cientificidade?

(iii) hierarquia entre os períodos de treinamento:

Como bem discutido na literatura, o Modelo Tradicional é caracterizado por sua divisão em diversos níveis. Cada um deles guarda objetivos particulares. Veja um resumo na tabela baixo:

 

Componente de Preparação

Conteúdo

Muitos anos de preparação (anos)

Maior período de treino sistematizado. Composto por ciclos de 2 ou 4 anos

Macrociclo (meses)

Maior ciclo de treinamento (geralmente anual). Composto pelos períodos de preparação, competição e transição

Mesociclo (semanas)

Ciclo médio de treinamento. Composto por microciclos

Microciclo (dias)

Menor ciclo de treinamento. Composto por um conjunto de dias; geralmente uma semana.

Sessão (horas ou minutos)

Uma sessão única de treinamento.

Adaptado de Issurin, 2010.

 

(iv) proposição de variação no ciclo anual de treino.

Devido as próprias características de evolução do esporte, que vieram a exigir a ocorrência de mais de um pico de rendimento máximo anual (como proposto no Modelo Tradicional em sua primeira versão), foram propostos posteriormente os modelos com dois e três picos, como pode ser observado na figura abaixo (1)

Acredito que estas informações tenham elucidado bastante algumas características do Modelo Tradicional. Na próxima postagem continuaremos com este modelo de periodização.

Até a próxima e bons treinos.

Prof. Guilherme Tucher (tucher@guilhermetucher.com.br)

Sugestão de leitura:

1.         Issurin V. New horizons for the methodology and physiology of training periodization. Sports Medicine. 2010;40(3):189-206.

2.         Dantas EHM. A prática da preparação física. 5 ed. Rio de Janeiro: Shape 2003.

3.         Tubino MJG. Metodologia científica do treinamento desportivo. Rio de Janeiro: Shape; 2003.

4.         Gomes AC. Treinamento desportivo: estrutura e periodização. Porto Alegre: Artmed; 2002.

5.         Zakharov A, Gomes AC. Ciência do treinamento desportivo: aspectos teóricos e práticos da preparação do desportista, organização e planejamento do processo de treino. 2 ed. Rio de Janeiro: Palestra Sport; 2003.

6.         Bompa TO. A periodizaçao no treinamento esportivo. 1 ed. São Paulo: Manole; 2001.

7.         Bompa TO. Periodização: teoria e metodologia do treinamento. 1 ed. São Paulo, SP: Phorte; 2002.

8.         Platonov VN. Teoria geral do treinamento desportivo olímpico. Porto Alegre: Artmed; 2004.

9.         Platonov VN. Tratado geral de treinamento desportivo. São Paulo, SP: Phorte; 2008.

10.       Weineck J. Treinamento ideal. 9 ed. São Paulo: Manole; 1999.

11.       Oliveira PR. Periodização contemporânea do treinamento desportivo: modelo das cargas concentradas de força. São Paulo: Phorte; 2008.

 

Sobre Guilherme Tucher

Guilherme Tucher
é Doutor em Ciências do Desporto (2015), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (2008), Especialista em Esporte de Alto Rendimento (2014), em Natação e Atividades Aquáticas (2005) e em Treinamento Desportivo (2006), e Graduado em Educação Física (2003). Possui curso de aperfeiçoamento em Gestão, Direito e Marketing no Esporte (2013) e de Operação de Arenas Multiuso (2014). Possui ainda formação complementar na área de Estatística. Foi treinador de natação competitiva com atleta em campeonato estadual (RJ) e nacional. Atualmente é docente do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (Campus Rio Pomba).

2 comentários

  1. Excelente trabalho professor !!!!!! uma boa introdução ao assunto !!!!!!!!!

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