Periodização do Treinamento Esportivo – Uma primeira conversa

Um dos primeiros pontos que deve-se levar em consideração é que a teoria tradicional do treinamento desportivo que se conhece hoje foi proposta a cerca de 50 anos atrás (1960). Além disso, é sensato afirmar-se que os conhecimentos da época eram limitados até mesmo para algumas afirmações que foram feitas (ISSURIN, 2010). Deve-se considerar ainda que qualquer “conhecimento” é fruto de anos de pesquisa e investigação. Assim, por mais que os conhecimentos sobre a periodização do treinamento desportivo tenham começado a serem divulgação na década de 60, é de se esperar que os esforços de racionalização desta proposta tenham começado alguns anos antes (provavelmente muitos). Finalmente, deve-se levantar a questão que desde essa época o esporte mudou (em todos os sentidos imagináveis: calendário, importância social, número de competições, formas de disputa, tipos de modalidades esportivas e etc) e a ciência também, mas o Modelo Tradicional de periodização – que tem como seu principal representante o russo Lev P. Matveyev, manteve-se em seus pilares de sustentação iniciais (ISSURIN, 2010).

Essa possível contradição entre as características da Periodização Tradicional e o esporte moderno são elencadas por Issurin (2010) como: (i) possível dificuldade de adaptação fisiológica em decorrência do treinamento de diversas capacidades simultaneamente; (ii) fadiga excessiva ocasionada pelo treinamento prolongado de diversas capacidades; (iii) estímulo insuficiente de treinamento devido as cargas de média e baixa concentração (típico dos estímulos variados do treino); e (iv) incapacidade de múltiplos rendimentos máximos em uma temporada. Em virtude destas características, novos modelos de periodização surgiram com a promessa de superar estas limitações e atender as exigências de preparação do esporte moderno (ISSURIN, 2010).

Segundo Issurin (2010) o Modelo de Periodização em Blocos apresentou-se como uma alternativa ao Modelo Tradicional. Resumidamente esta proposta baseia-se na sequência de ciclos especializados de treinamento com altas cargas concentradas e visando um número reduzido de objetivos (em clara oposição ao Modelo Tradicional que defendia o desenvolvimento de vários objetivos concomitantemente). Baseia-se, então, no conceito de efeito cumulativo do treinamento e no seu efeito residual.

Mas como nem tudo são flores, parece que a ciência não está totalmente certa dos pressupostos teóricos defendidos pelo Modelo Tradicional e pelo Modelo em Blocos. Kiely (2010) responde ao artigo de Issurin (2010) e escreve outro publicado na International Journal of Sports Physiology and Performance (KIELY, 2012) com várias contestações aos argumentos comumente apresentados para defender os benefícios e cientificidade dos modelos de periodização que se conhecem.

Na próxima postagem escreverei um pouco sobre o Modelo Tradicional.

Até mais.

Sugestão de leitura:
ISSURIN, V. New horizons for the methodology and physiology of training periodization. Sports Medicine, v. 40, n. 3, p. 189-206,  2010.

KIELY, J. New horizons for the methodology and physiology of training periodization. Block periodization: new horizon or a false dawn? Sports Medicine, v. 40, n. 9, p. 803-807,  2010.

KIELY, J. Periodization paradigms in the 21st century: evidence-led or tradition-driven? International Journal of Sports Physiology and Performance, n. 7, p. 242-250,  2012.

Sobre Guilherme Tucher

Guilherme Tucher
é Doutor em Ciências do Desporto (2015), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (2008), Especialista em Esporte de Alto Rendimento (2014), em Natação e Atividades Aquáticas (2005) e em Treinamento Desportivo (2006), e Graduado em Educação Física (2003). Possui curso de aperfeiçoamento em Gestão, Direito e Marketing no Esporte (2013) e de Operação de Arenas Multiuso (2014). Possui ainda formação complementar na área de Estatística. Foi treinador de natação competitiva com atleta em campeonato estadual (RJ) e nacional. Atualmente é docente do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (Campus Rio Pomba).

2 comentários

  1. Como bem discutido em nossas aulas de treinamento dos esportes coletivos , uma outra discussão que se levanta, quando se fala em periodização do treinamento, é quanto o modelo a se seguir nos esportes coletivos. Acredito que para tal modalidade esportiva, nenhum dos modelos comentados se enquadram, apesar de serem importantes para algum momento do treinamento.
    Grande abraço

    • Guilherme Tucher

      Muito bom, Marcelo. A influência dos esportes individuais (principalmente a corrida) no processo de treinamento e periodização sempre foi muito grande. Se muitas adaptações são feitas parece-me que já não seguimos a proposta original. Grande abraço

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